aqueles olhares! tão frequentes e velozes. um lapso de contemplação, acompanhado com uma curiosidade. estou farto deles!
a madrugada fria e chuvosa foi solitária e lenta. estou de férias, breves mas absolutas e isso me deu algum tempo. tempo que queria para pensar e remoer coisas que há muito estavam me incomodando! e foi profícuo!
a verdade é que estou insatisfeito, ou meio insatisfeito. digo "meio" porque os últimos anos tiveram muitas conquistas, profissionais e pessoais. profissionalmente tenho um bom emprego, pessoas que acreditam e apoiam meu trabalho e sou um apaixonado pelo que faço! é a coisa que espero de mim o resto da vida. talvez, isso seja a coisa que mais se preserve diante do futuro, a coisa que não irá mudar: eu sou um professor!
pessoalmente eu tentei manter um pequeno grupo de amigos por perto, alguns mais do que família, mas nem sempre foi possível. acabei afastado de uns, por decorrência das trajetórias de vida, das buscas que todos temos e das escolhas que sempre implicam em perdas. por fim, rompi com outros poucos, que foram se tornando uma presença destoante, um ato forçado e obrigatório, mas que aprendi a dizer não. na família, comecei finalmente a tolerar e ficar em trégua (não é paz, é apenas uma trégua) com os pais, irmãos e todo o resto. e está bem assim. passei por um relacionamento profundo e levantei de um final abrupto e tão rápido como o começo. conheci muita gente, mas ninguém moveu minha paixão, o que tem lá suas vantagens.
desde o começo do ano, eu sabia que 2010 seria longo e difícil. um ano de trabalho duro na escola e de estudos penosos no mestrado. com pouca grana e pouquíssimo tempo livre. ou seja, muitas razões para me estressar. de fato, foi a primeira vez em minha vida que tive sinais físicos de estresse: a perda de sono, problemas na pele, diminuição da libido...
eu só não sabia que toda essa experiência, com muito trabalho e compromisso, me traria essa sensação repentina e angustiante de desordem, de insatisfação do que se tem e de como se está. dentre todas as coisas que sempre temi, a estagnação sempre foi a máxima. sempre fugi da conformidade do lar e dos confortos da vida regrada. eu sempre amei a corda bamba! os riscos e a inconsequência, que me fazem sentir ainda jovem. será no fundo isso uma nova crise de idade?
lembro que ao fazer 25 anos, tive a primeira grande crise de idade, após a puberdade. basicamente eu achava 1/4 de século um tempo muito significativo pra quem estava começando uma carreira e saíndo da universidade. tinha diante de mim muitas incertezas e poucas portas abertas. mas sobrevivi (talvez com muita sorte) ao erro de crer que tudo estava perdido. nunca "tudo está perdido", essa é apenas uma das ilusões do comodismo a que tanto odeio. aqueles que me conheciam, me advertiram: seria um ano para de ser mais concentrado, mais centrado nas metas a se atingir! um ano para cumprir a tabela no mestrado e assim me capacitar para a próxima etapa da vida profissional. e de fato está sendo duro.
esse post não é um reclamação, e tão pouco um desabafo, ele é uma constatação. que devido a proximidade do meu aniversário, em duas semanas, parece mais ainda com uma suposta crise de idade. a propósito, estarei fazendo 32 anos sobre a "alface" da terra, como diz uma grande amiga.
mas voltemos a madrugada. ela foi diante do meu desktop, como usualmente é. em meio ao entretenimento, ao estudo e, confesso, um pouco de trabalho também. professores nunca deixam as salas de aula, nem quando saem delas. mas era mais uma das noites sem sono comigo mesmo e toda a informação que a www poderia me dar. assisti seriados, baixei coisas, li jornais, salvei imagens, mapas, textos, postei nos blogs, comentei, orkutei, twittei, enfim, tudo. e bateu essa coisa. essa insatisfação das tarefas. e senti a vontade de partilhar o fardo, de dividir a carga e os fantasmas. talvez o que tenha sentido foi medo puro, carência e solidão. talvez tenha sido apenas a tal crise da idade, vá saber! mas aí, quando essas coisas acontecem, a gente se sente pequenos e incapaz, e se sentir pequeno é algo raro na condição dos meus 1,98 metros de altura combinados com os mais de 100Kgs de mauríccio. houve uma ponta de desespero, diferente de sempre. houve um momento dessa fria madrugada que senti a maior distância de todas: o isolamento. e fiquei perdido nas minhas amarras, lamentando minhas frustradas tentativas de ter algo novo e bom nesse ano. enfim, senti-me em conformidade com a ordem das coisas e num momento de entrega do destino. como se o tempo fluisse e tudo funcionasse sem a menor das minhas vontades. eu fui nessa noite uma peça perdida em um gigantesco mosaico, do qual eu não me sentia parte.
foi aí que algo extraordinário aconteceu. e o extraordinário sempre acontece com um econtro, ou mais raramente, com um reencontro. o msn apitou perto das 6 horas e um amigo (guardarei os adjetivos para mais tarde) daqueles inconstantes na presença, mas profundos na minha alma, me teclou "bom dia"! certamente chegado de alguma festa, é final de semana, e apesar do frio e da chuva, a vida continua. e de fato estava. mais do que o encontro virtual, foi a possibilidade de uma conversa pretenciosamente despretenciosa, mas que me trouxe a tona uma série de dados de realidade, necessários ao desenvolvimento e resolução (possível) do meu processo de crise. foi ele quem iniciou as confissões: havia traído a namorada. ora, nunca fui um defensor da monogamia, e só me preocupei se ele estava bem, se não estava desconfortável ou culpado. logo resolvemos tudo e meu amigo replicou: e tu, como estás? os meus dedos deslisaram no teclado, me entregando, me expondo, declarando toda a angústia que me assombrava. e a pergunta retórica dele abriu um baú pesadamente trancafiado. foi uma hora de conversa linear e séria, da qual há muito não tinhamos. onde definitivamente, esse amigo soube o que me escrever. se eu não fosse agnóstico, diria que foi providencial o nosso reencontro, talvez místico. mas de fato, foi um daqueles momentos únicos em que percebemos o quão é importante abrirmos nossas verdades àqueles que amamos. talvez mais importante ainda, seja a liberdade concedida para entrem e bagunçarem nossos pensamentos e certezas. meu amigo fez isso, com total autoridade e sabedoria. soube o que falar e foi profundamente (e dolorosamente) sincero. quebrou e moveu coisas, desarticulou planos e sobretudo feriu meu orgulho mortalmente. então, arrazado pelas palavras, ele me estendeu sua mão e me fez olhar, para bem adiante de meus pés, que então minha cabeça baixa conseguia enxergar.
finalmente esse post é uma conclusão e um pedido. a conclusão está clara e começa a ser o adubo mais forte às novas sementes. o pedido é para esse amigo...
obrigado por existires!
2 comentários:
Cacete, to no trabalho lendo, quase que choro aqui no meio dos colegas
p.s. precisa dizer que trai ? agora não posso mostrar isso pra ngm heauiheauiheia
ah e eu tbm te digo meu amigo, valeu por tudo, te considero muito
Postar um comentário